Genocídio Armênio: 102 anos

Inscrição no Memorial aos Mártires Armênios, em São Paulo

Hoje, 24 de abril, é mais um dia comum para a grande parte dos povos do mundo – e, para os brasileiros, um pós-feriado prolongado. No entanto, um povo em especial vê essa data como um momento de lamentação, memórias e, para alguns indivíduos, indignação e raiva. Me refiro ao povo armênio e aos seus descendentes.

Mas o que o dia 24 de abril tem de especial para os habitantes daquele pequeno país asiático?

Trata-se do dia no qual é lembrada a memória do Medz Yeghern, também conhecido como o Genocídio Armênio; o massacre da população armênia cometido pelo extinto Império Otomano, especificamente pelos turcos-otomanos. O Medz Yeghern é, para os armênios, uma data equivalente ao que o Holocausto representa para os judeus.

Em 2017 completam-se 102 anos desde o início dos massacres, embora a perseguição aos armênios tivesse sido estabelecida no Império Otomano ainda no século XIX, quando mais de 20 mil armênios foram assassinados naquela ocasião.

Sendo assim, por que a escolha do dia 24 de abril como data de memória?

A data foi escolhida para lembrar o dia 24 de abril de 1915, o “Domingo Vermelho”. Nessa data, autoridades otomana prenderam mais de 250 intelectuais, líderes comunitários e empreendedores armênios na cidade de Constantinopla, então capital do império. Porém, a perseguição começou ainda durante um dos maiores conflitos da história humana: a Primeira Guerra Mundial.

Dominação otomana

O povo armênio é um dos mais antigos de toda a história. A capital do país, Erevan, é considerada uma das mais antigas cidades do mundo. Na Antiguidade, montaram um dos maiores impérios da região do Cáucaso, e foram a primeira nação do mundo a adotar o cristianismo como religião de estado, no século IV d.C. Tal situação perdurou por mais de mil anos, até que no século XV os armênios foram conquistados e passaram a fazer parte do Império Otomano.

Durante o período de ocupação otomana, os armênios sempre manifestaram o desejo em obter a sua independência, em grande parte pela sua incompatibilidade com os valores dos demais habitantes do império, especialmente em relação aos turcos; aqueles eram cristãos, enquanto estes eram muçulmanos. Além disso, os turcos sempre tiveram um certo desprezo pela população armênia, da qual cobravam impostos abusivos e retinham vários direitos. Isso reforçou o desejo armênio pela independência, especialmente no século XIX.

Primeira Guerra e Batalha de Sarikamish

No entanto, o momento não era nada favorável, pois os turcos estavam passando por sérios problemas para manter a integridade do império. Além disso, estavam envolvidos com a participação da Primeira Guerra Mundial, na qual entraram ao lado da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália – que viria a mudar de lado posteriormente). Dentro da sua participação na guerra, os turcos tiveram um conflito em particular com o Império Russo, integrante da Tríplice Aliança. Ambos os impérios lutavam pelo controle da região do Cáucaso devido aos poços de petróleo do local, sendo considerada uma região de controle vital para ambas as partes.

Então, após a entrada na guerra, os otomanos passaram a realizar o recrutamento de soldados por todo o império. No entanto, muitas minorias se recusaram a participar do conflito, entre elas os armênios. Tal posicionamento acirrou ainda mais as diferenças entre os dois povos, que chegaram ao seu limite na Batalha de Sarikamish.

A batalha de Sarikamish foi a principal batalha travada por turcos e russos na região do Cáucaso. O então Ministro da Guerra turco, Enver Paxá, criou um plano para tomar territórios russos na região de Sarikamish, no final de 1914. Contudo, o exército otomano foi quase que totalmente dizimado pelas forças do czar Nicolau II. Para completar a situação, parte das tropas russas que lutaram em Sarikamish eram formada por armênios que eram descendentes de russos ou que simpatizavam com os aliados. Tal fato foi o ponto culminante para que as relações entre turcos e armênios se rompessem definitivamente.

O início

Ao início do ano de 1915, Enver Paxá deu início ao processo de eliminação da população armênia. Em fevereiro, o ministro ordenou que as unidades formada por armênios – que contavam com boa parte dos homens de ascendência armênia do império – fossem desarmadas, desmobilizadas e enviadas para campos de trabalho, sob a alegação de prevenir que as unidades colaborassem com os russos. No entanto, era claro o intuito de neutralizar e exterminar os homens armênios, uma vez que os trabalhadores eram executados logo que os trabalhos eram concluídos.

Resistência de Van

Ainda em 1915, no mês de abril, a população armênia do vilarejo de Van (hoje pertencente à Turquia) foi abordada pelo seu governador, Jevdet Bei, que exigiu a entrega de 4 mil soldados para recrutamento. A população, no entanto, já sabendo que o intuito do recrutamento era deixar a cidade desprotegida, se recusou a entregar a quantidade de homens exigida, fornecendo 500 homens e dinheiro, na tentativa de ganhar tempo. Isso despertou a ira do governador, que ameaçou matar “cada cristão homem ou mulher e (apontando para o joelho) todas as crianças, até esta altura.”

No dia 20 de abril, iniciou-se a resistência na cidade, após o ataque a uma mulher armênia no qual dois homens foram mortos ao tentarem defendê-la. Cerca de 1500 homens, armados com cerca de 1300 armas (entre pistolas e fuzis antigos) conseguiram defender os 30 mil residentes da cidade contra os ataques turcos, até que as forças russas vieram em seu auxílio, comandadas pelo general Nikolai Yudenich.

O Domingo Vermelho

Após os episódios de Sarikamish e Van, o desejo turco de exterminar os armênios tornou-se ainda mais evidente. O ponto máximo foi o dia 24 de abril de 1915, um domingo. Nesse dia, escritores, intelectuais, políticos, líderes e religiosos armênios foram presos em Constantinopla e levado para campos de prisão próximos à cidade de Ancara (atual capital da Turquia). A ordem de prisão e deportação foi dada pelo ministro do interior otomano, Mehmed Talat. Cerca de 250 pessoas foram presas nesse dia, sendo posteriormente mortas nas prisões turcas. Por esse motivo, o dia 24 foi escolhido para ser o dia da Memória do Genocídio Armênio.

Cinco dias após o Domingo Vermelho, em 29 de abril, foi aprovada a chamada Lei Tehcir. Essa lei teve um efeito semelhante ao das Leis de Nuremberg, promulgadas durante o regime nazista alemão: a lei Tehcir autorizou o governo otomano a confiscar bens, dinheiro e propriedade dos cidadãos armênios, declarando os bens como “abandonados” para facilitar o confisco, uma vez que os seus donos ou haviam sido mortos ou estava fugindo para evitar os massacres. A lei foi a responsável por iniciar os processos de deportações dos armênios, que foi o pontapé inicial do genocídio.

Formas de extermínio utilizadas pelos turcos

Os turcos, uma vez iniciado o processo de deportação, trataram de descobrir maneiras de exterminar os prisioneiros de forma eficaz e rápida. Embora não tenham sido tão eficientes quantos os nazistas e os soviéticos foram depois deles, os métodos utilizados contra a população armênia foram diversos: fuzilamentos, morte por gás, incêndios e até crucificação (foto abaixo).

Mulheres armênias crucificadas (autor desconhecido). Fonte: Google.

No entanto, o método mais famoso de execução foram as chamadas “Marchas da Morte”. Nelas, os armênios, em sua maioria mulheres, crianças e velhos (a maior parte dos homens já havia morrido na guerra ou nas deportações iniciais) eram obrigados a andarem em fila indiana, sob o comando de oficiais turcos, e percorrerem longas distâncias no deserto, especialmente na região de Dir ez-Zor, na atual Síria. Ao mesmo tempo, os otomanos liberavam nessa região diversos bandidos, como salteadores, estupradores e assassinos.

Enquanto os armênios passavam pela região, eram atacados de forma impiedosa pelos criminosos, enquanto os soldados turcos meramente observavam. Por onde os civis passavam formava-se uma trilha de imagens de horror: velhos e crianças eram cruelmente assassinados, mulheres eram violadas na frente dos filhos, antes de também serem mortas. Um relatório de 1915 do jornal The New York Times destacou e denunciou com veemência que “nas estradas e no Eufrates estão espalhados os cadáveres dos exilados, e os que sobrevivem estão condenadas a uma morte certa. É um plano para exterminar todo o povo armênio”.

Retrato de uma das marchas da morte (autor desconhecido). Fonte: Google.

Repercussão

Com o tempo, os jornais do mundo inteiro foram dando mais atenção ao sofrimento da população armênia. O The New York Times, citado anteriormente, recebia cada vez mais relatos sobre os acontecimentos, e o Comitê para a União e o Progresso (partido que comandava a política otomana durante o período dos massacres) recebeu grande pressão, tendo vários membros condenados pelo sultão Mehmed VI durante uma corte marcial em 1919. Embora a corte tenha sido montada para julgar os membros do partido pela entrada do império otomano na Primeira Guerra, a questão armênia também foi utilizada como motivo para a condenação.

Os membros da Tríplice Aliança, aliados dos turcos, incluindo os alemães, demonstraram uma atitude muito mais complacente com os massacres. Apesar dos relatos de que oficiais alemães sabiam dos massacres, nenhum deles interviu para apoiar os armênios ou ajudá-los, embora alguns oficiais do exército alemão tenham contestado as declarações turcas de que os armênios tenham iniciado os conflitos através de revoltas.

Já os membros da Tríplice Entente fizeram várias advertências ao governo otomano, especialmente após a tomada pelo exército britânico da cidade de Alepo, onde os oficiais ingleses encontraram documentos que provariam que o extermínio dos armênios foi sistematicamente planejado pelos turcos.

Mortos

Como resultado dos massacres turcos, boa parte da população armênia presente no império foi dizimada. As menores estimativas estão em 800 mil armênios mortos, enquanto a estimativa mais aceita é de 1,5 milhão.

Além disso, o evento causou a chamada “diáspora armênia”, com milhões de armênios fugindo de suas terras e de suas casas para evitar a morte, indo para países da Europa e da América. Estimativas aponta, que cerca de 8 milhões de armênios estão espalhados ao redor do mundo. No Brasil, a comunidade armênia é composta por cerca de 25 mil pessoas.

Além das perdas humanas, estima-se que cerca de 6 milhões de libras em ouro foram roubados dos armênios, assim como joias, imóveis, dinheiro e depósitos bancários.

Atualmente

Em 2015 completaram-se 100 anos da ocorrência do genocídio armênio, mas não há muitas razões para os armênios comemorarem. A Turquia, estado herdeiro do Império Otomano, recusa-se com veemência a usar o termo “genocídio” ao se referir ao massacre dos armênios. Eles sustentam a versão já fornecida pelo império: não só morreram muito menos armênios do que o alegado pela comunidade internacional, mas também as mortes foram em decorrência de atos de guerra ou de sabotagens praticadas pelos armênios, especialmente os de ascendência russa.

No entanto, grande parte da comunidade internacional se mostra favorável aos armênios. O Uruguai foi o primeiro país a reconhecer o genocídio, em 1965. Desde então, aproximadamente 30 países reconhecem os massacres turcos como genocídio, entre eles a Alemanha e a Rússia. Países como os EUA e o Brasil, embora condenem os massacres, ainda não reconhecem oficialmente o genocídio. Mesmo assim, isso não impediu que fosse criado em São Paulo um memorial às vitimas do Medz Yeghern

Memorial das vítimas do Genocídio Armênio em São Paulo. Foto: Google.

Em 2016, o papa Francisco visitou o Memorial do Genocídio Armênio em Erevan, e deu o seu reconhecimento ao genocídio, afirmando que “a memória não deve ser suprimida e esquecida.”

Conclusão

O Medz Yeghern foi o primeiro grande exemplo de agressão e matança sistemática e em grande escala de um povo contra outro, no qual centenas de milhares de pessoas foram presas, deportadas e assassinadas através de métodos que, embora primitivos em virtude da época, foram organizados, pragmáticos e direcionados a um claro objetivo: assassinato.

Infelizmente, o genocídio armênio ainda está longe de alcançar a atenção merecida, tal como o Holocausto alcançou. Existem poucas obras, livros e filmes sobre o tema, pouca repercussão da mídia e pouca boa vontade da comunidade internacional em pressionar os turcos a reconhecerem o crime como genocídio.

Embora o artigo tenha ficado longo, o tema está longe de ser explorado. Existem muitas leituras e pontos de vista sobre o assunto, razão pela qual deixo, ao final desse artigo, algumas obras que permitirão ao leitor conhecer um pouco mais sobre o assunto.

E, para encerrar, deixo abaixo aquela que acabou sendo uma das imagens símbolos do genocídio armênio: um funcionário otomano segurando uma fatia de pão e sacudindo-a diante de crianças famintas.

Funcionário turco agitando um pedaço de pão para um grupo de crianças armênias famintas. Fonte: Google

O alcance do mal que o poder dos governos pode fazer é algo que não pode ser medido em metros, quilômetros, anos ou sequer anos-luz.

Livros e artigos

Arnold J. Toynbee. The Treatment Of Armenian in the Ottoman Empire. http://www.hri.org/docs/bryce/bryce2.htm

Instituto Mises Brasil. Desarmamento e Genocídios. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1494

The New York Times. Armenian Genocide of 1915: An Overview. http://www.nytimes.com/ref/timestopics/topics_armeniangenocide.html

The Huffington Post. Why Armenian Genocide Matters? http://www.huffingtonpost.com/robbie-gennet/why-the-armenian-genocide_b_496995.html

Wikipedia. Genocídio Armênio. https://pt.wikipedia.org/wiki/Genoc%C3%ADdio_arm%C3%AAnio

Filmes

1915 The Movie – Official Trailer (2015). https://www.youtube.com/watch?v=gyo-G3dhMRM

A Promessa (2016). http://www.imdb.com/title/tt4776998/

Podcasts

LeverCast Ep. 3: Genocídio Armênio. https://soundcloud.com/user-947658209/genocidio-armenio-4

Xadrez Verbal Especial – Armênia. https://xadrezverbal.com/2016/12/30/xadrez-verbal-especial-armenia/

Música

System of a Down: P.L.U.C.K. https://www.vagalume.com.br/system-of-a-down/p-l-u-c-k.html

 

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