Diretor representa Instituto Tropeiros em conferência do Mises U, no EUA.

 

Willian Pablo (Diretor de Grupos), representa Instituto Tropeiros no EUA.

Imagine passar uma semana com os maiores especialistas do mundo em Escola Austríaca e teoria libertária. Imagine poder tomar café da manhã, almoçar e jantar com acadêmicos que conheceram pessoalmente figuras como Milton Friedman, Friedrich Hayek, Mises e Rothbard. Vamos um passo adiante, imagine que você vai ter tanto a hospedagem quanto todas as refeições dessa semana pagas por outra pessoa, e que não vão economizar contigo. Mais ainda, imagine que você poderá ganhar mais de mil dólares no final da semana caso seja bem sucedido em um exame oral.

 

Parece um sonho? Bom, isso existe, eu fui, e vou contar neste texto toda a minha experiência, e dizer o que você precisa para ir também.

 

O evento se chama Mises University e ocorre em Julho, todos os anos. Em resumo, se trata de 6 dias consecutivos de painéis e aulas acerca de economia, história, filosofia, política e direito, todos numa perspectiva austro-libertária. No total, são 36 horas de conteúdo puro sendo transmitido, mas a verdadeira mágica está fora das aulas. Ela se encontra no contato com diferentes estudantes dos mais variados países, nas dúvidas que podem ser esclarecidas pelos professores, numa excursão pela biblioteca pessoal do Rothbard, onde é possível, em alguns livros, ver suas anotações à mão.

 

Eu ouvi falar desse evento através do Instituto Mises Brasil em 2015, não fui em 2016 porque ainda não havia começado meus estudos na universidade (e eu também já estava fora do ensino médio), o que tornou complicado eu conseguir uma carta de recomendação de algum professor, algo que o Instituto Mises americano exige para a inscrição no evento.

 

Mas foi só eu entrar na universidade o instituto abrir a seleção que eu comecei a aprontar tudo. As inscrições iam até maio de 2017, mas já por novembro de 2016 eu já tinha feito tudo o que precisava. Consegui uma carta de recomendação de uma professora que, não obstante nos ensine marxismo e não tenha nem um pouco de alinhamento com a abordagem austríaca, se dispôs a fazer a minha carta de recomendação. Na carta, eu pedi a ela que ressaltasse os meus fortes em sala de aula. Modéstia parte, eu era um aluno bastante participativo e minhas notas eram boas. Não por coincidência eu sou atualmente o monitor da disciplina que cursei com essa professora.

 

A carta de recomendação não pode ser modesta, Mises University não é um evento que basta que você queira, você terá que passar pela seleção do Instituto Mises Americano. Eles precisam achar que vale a pena te dar a melhor semana que você poderia querer na sua vida.

 

Além da carta de recomendação, você também precisará enviar pra eles uma xerox da sua carteira de estudante. Quando a seleção começou eu estava sem carteira de estudante, mas como eu comecei a providenciar as coisas cedo demais, deu tempo (que sobrou) pedir a carteira de estudante e depois confirmar a minha inscrição.

 

No dia 11 de fevereiro, recebi um email da Patt Barnett do Instituto Mises, eu tinha sido agraciado com a semana mágica da Mises U.

 

Ok, estava bom demais para ser verdade… tem apenas um detalhe que eu não contei até aqui: a passagem até lá, bem como a volta, foi por minha conta. Mas se você acompanhar com atenção o resto desse texto, acredito que serás convencido de que vale a pena – até porque há vários sites hoje em dia que facilitam a arrecadação de doações pra esses tipos de projetos, como a vakinha ou o kickante, e se você está  confiante no teu conhecimento de teoria econômica austríaca, você pode ganhar até U$2500 no exame oral. Considerando o preço que paguei nas minhas passagens e a taxa de câmbio hoje em dia, isso daria pra cobrir as passagens e ainda sobrar.

 

Eu não consegui o prêmio, mas se você estiver afiado mesmo (no inglês, inclusive), não tem bronca.

 

 

Quando desci em Atlanta, busquei o Groome Shuttle, companhia de transporte responsável por me levar de Atlanta para Auburn. Quando entrei no ônibus eu já fiquei espantado, escutei alguém falando baixinho o nome Hayek, e depois Mises.

 

Era uma simpática garota polonesa, ela conversava com um senhor simpático que segurava o livro “A tragédia do grande poder político” (tradução minha) do autor John Mearsheimer. Olhando melhor para esse senhor, o reconheci. Era o professor David Gordon, um dos palestrantes da Mises University.

 

Eu cumprimentei brevemente, mas fui o resto o do caminho para Auburn dormindo, tinha sido um longo caminho de João Pessoa até Atlanta, e eu estava cansado.

Fomos levados para o dormitório. Lugar até espaçoso, mas frio se comparado ao clima de Auburn. Eu tive acesso a uma cama, uma escrivaninha, uma mesa e um banheiro compartilhado. Dividi meu quarto com um simpático Texano que tocava instrumento de sopro e gostava da velha bossa nova brasileira.

 

Coloquei minhas coisas lá e fui rapidamente para o instituto, com a mesma roupa da viagem, eu estava com fome e não queria perder o jantar.

 

Chegando no instituto, a primeira palestra foi a do Dr Thomas E Woods Jr, um historiador conhecido no movimento pelos seus livros do “Guia politicamente incorreto” e Meltdown (além de outros). O Tom Woods também foi o cara que me inspirou a fazer podcasts, antes de começar o levercast eu escutava bastante o Tom Woods Show e o Contra Krugman, ambos apresentados pelo Tom Woods.

 

Woods fez um verdadeiro tributo ao Murray Rothbard, nos falou de suas experiências com o autor e relembrou a importância dele.

 

 

A rotina é puxada. Ao longo da semana, todos os dias estão recheados com palestras, com apenas 15 minutos de intervalo entre umas e outras. Nesses 15 minutos é possível pegar algum café ou alguma comida pra beliscar, ou então conversas com os outros estudantes, ou até abordar o professor que deu a palestra com as suas dúvidas (mas há um horário específico pra isso também, o Office Hours).

 

Aqueles que eram mais interessados em direito do que em economia, puderam ter um curso de uma semana com o juiz Andrew Napolitano. Eu não participei desse curso, mas pelo que falaram, deve ter sido ótimo.

 

Por uma bagatela de 90 dólares você pagará todo o transporte da semana, o que inclui a ida e volta do aeroporto de Atlanta para Auburn e o transporte que ocorre todo dia do dormitório para o refeitório, do refeitório para o instituto e do instituto para o dormitório.

 

Os membros do instituto, grande parte deles autores, possuem seus livros a venda na livraria e autografaram o seu com o maior prazer.

O Dr. Roger Garrison autografa o livro que comprei dele.

 

O simpático Dr David Gordon também autografou meu livro

Mas isso não é tudo. Tem uma sessão lá de livros gratuitos e outra de livros usados por apenas $1 (muitos desses tendo novos na própria livraria). Infelizmente não vi a tempo, mas tinha gente levando pra casa o Ação Humana do Mises por 1 dólar. Há! Eu também achei lá a revista acadêmica do Instituto Mises Brasil, de 2014, pra vender por apenas 1 dólar. Infelizmente eu tive que me controlar pra não trazer livros demais, senão certamente iria ter problemas físicos ao transportar tanta coisa (pra não falar dos problemas financeiros das taxas por excesso de peso.

 

 

Rating Global Economic Freedom foi um desses livros que eu trouxe de graça. É um livro do Fraser Institute que aborda em detalhes como foi realizado o processo de mensuração da liberdade econômica nos países. A Fraser é um dos institutos que se engajam na elaboração de índices de liberdade econômica. Outros institutos como o Cato e a fundação Heritage também fazem um trabalho similar.

A comida é muito boa, e – aparentemente – infinita. Eu não vou mentir, eu gosto de fritura e de gordices, mas mesmo se você não gostar, eles disponibilizam até comida vegana lá. O refrigerante também é por conta deles, é só abrir a geladeira e pegar um. Pros que bebem, também há cerveja após encerradas todas as aulas do dia. A cerveja também é – aparentemente – infinita.

Meu café da manhã.

 

Hora social após a aula do primeiro dia.

 

Eles também têm lá o que deve ser o sonho de muitos libertários: a biblioteca do Rothbard. E com isto eu me refiro a todos os livros que Rothbard tinha em sua residência, muitos deles com anotações do próprio Rothbard nas páginas.

Foto do Gabriel Cesar de Andrade

 

 

Eles também possuem uma biblioteca vasta no terceiro andar, onde você pode encontrar livros diversos que não necessariamente possuem alguma ligação com a escola austríaca. Eu fiquei muito feliz em encontrar Cosmos, do Carl Sagan, na biblioteca deles.

 

E também há alguns segredos lá que você tem que ser enxerido como eu para descobrir. Por exemplo… se você subir até a área administrativa do Instituto (fica no segundo andar) e caminhar até o escritório do presidente do Instituto, o Jeff Deist, você poderá encontrar lá uma cópia da primeira edição do livro “Capitalismo, um ideal desconhecido” da Ayn Rand, autografado pela própria Ayn Rand. Uma verdadeira relíquia.

Eu à direita, Jeff Deist à esquerda

Eu com Gabriel de Andrade, vice presidente do Instituto de Formação de Líderes de Santa Catarina (Centro) e Lew Rockwell, o fundador do Mises Institute (Direita).

 

Mas sem dúvida, uma das melhores coisas é conhecer pessoas que, não obstante falem diferentes línguas, se entendem muito bem. Eu sou uma pessoa muito exigente pra reuniões sociais, se o papo não for estimulante, eu não fico. Lá os papos SEMPRE eram interessantes. Um dos caras que eu adorei bater um papo foi um rapaz de 16 anos chamado Nate Strum e o seu pai. Nate tinha um conhecimento bem bacana sobre Kant e foi muito legal trocar umas figurinhas com ele (ps: ele faz homeschooling, ou seja, é educado em casa).

Eu, Nate e o seu pai.

 

Eu também conheci um rapaz que estava envolvido com a campanha de vários políticos com pautas liberais nos Estados Unidos, estando atualmente trabalhando para a eleição de Austin Petersen (fundador do site The Libertarian Republic) para o senado. Conheci uma polonesa estudante de física e pudemos falar um pouco sobre ondas gravitacionais e física de partículas. Conheci uma Vienense interessada em estudar os bancos centrais. Conheci um rapaz de Bogotá que quer que sua cidade se separe da Colômbia. Experiências mil, de todas as partes do mundo, interagindo e trocando ideias.

 

Em termos acadêmicos, como estudante de economia, o que achei mais interessante lá foram as aulas e livros do Roger Garrison é um pequeno livreto publicado pela Springer acerca da tentativa de se criar um modelo econômico sem abandonar a abordagem subjetivista e praxeológica da Escola Austríaca. Esse livrinho, diferentemente da vasta maioria das outras literaturas da escola austríaca, não economiza em equações.

 

Também foi interessante ver que os próprios professores divergem em algumas questões. O Jeff Herberner, por exemplo, não adota a definição Rothbardiana de bem, e possui algumas divergências com o Robert Murphy, que por sua vez possui divergências com a pura teoria da preferência temporal do Eugénia Von Bohm-Bawerk.

 

Enfim, não vou dar mais spoiler. Se tu acompanhou até aqui, já deve imaginar como a experiência deve ter sido. O resto eu não posso te contar, você vai ter que descobrir por si mesmo, e cada pessoa possui uma história um pouco diferente para contar sobre a Mises U.

 

Pra não perder a oportunidade de ir próximo ano, e de arrasar nos exames por lá, não deixe de acompanhar as leituras e discussões que ocorrem no Clube Farol da Liberdade. O próximo livro que vamos tratar é de economia, e de um economista austríaco, o Bohm-Bawerk.

 

Se você for de João Pessoa, não perca. Se não for, que tal utilizar o nosso roteiro de estudos pra ler ao mesmo tempo que nos? Chega junto!

 

Abaixo, mais imagens da viagem.

 

 

Graduando em Administração pela Universidade Estadual da Paraíba e Presidente Fundador do Instituto Tropeiros.

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