A “NOVA” LÍNGUA PORTUGUESA

Não começarei a expor aqui algo sobre a novilíngua, criada por Orwell no romance 1984, e nem muito menos sobre a origem, historicidade, da língua portuguesa, do galego-português e blá blá blá…, pois isso tudo já foi discutido anteriormente por outros pesquisadores, jornalistas ou professores, assim como eu. Acompanhamos em nosso país nos últimos anos, uma drástica revolução cultural-política-religiosa, e visto que a língua sofre influências diretas da sociedade, por ser um conjunto de códigos que se alteram constantemente, um organismo vivo, essa também foi alterada severamente.

Um dos maiores problemas que enfrentamos na atualidade sobre as discussões acerca desta “nova” língua portuguesa, que tem surgido nas duas últimas décadas, são as questões de problemas sociais, racismo, sexismo, homofobia etc, que tem invadido também o campo linguístico e que consecutivamente tem alterado radicalmente a nossa forma de falar, de nos comunicar, e utilizar a língua portuguesa.

 HIPERÔNIMOS EM EXTINÇÃO

A palavra hiperônimo que é originada do grego hyperonymon, hyper = acima e onymon = nome, é uma palavra de sentido genérico, que serve para substituir outra palavra de sentido mais especifico em que ambas possuem uma relação semântica, sentido, de proximidade. Exemplificando: Coloque os animais no carro, por favor, Carlos. Aqui podemos observar que a palavra animais é um hiperônimo de cão e gato.

Esta foi uma das primeiras estratégias ideológicas-políticas de implementar-se uma nova linguagem em nossa sociedade. Excluindo-se os hiperônimos, passando-se a separar todas as palavras em gêneros feminino e masculino, como se este fenômeno linguístico possuísse alguma relação com a sexualidade ou o gênero das pessoas. Logo, podemos observar esta estratégia neste exemplo: Companheiro e companheira devemos lutar por nossos direitos. Ao invés de utilizarmos um hiperônimo, companheiro ou amigos ou colegas, substituímos-lo por duas palavras com desinências de gêneros distintas, “a” e “o”, separando as pessoas em grupos específicos, como se as mulheres ou os homens não fossem seres da mesma espécie e devessem ser classificados como distintos, senão uma das partes estaria sendo menosprezada ou desclassificada.

Vejo isto constantemente em minha profissão, onde ouço constantemente coisas como: Professores e professoras sejam bem-vindos. Onde a palavra professores é um hiperônimo de toda classe de docentes e não apenas os que são do gênero masculino. Outro ponto interessante de se observar é que o “e” é a desinência uniforme, ou seja, comum aos dois gêneros, feminino e masculino, não sendo possível, lógico, a palavra “professores” ser representante apenas do gênero masculino como podemos observar também nas palavras: assistente, cliente, docente, estudante, gerente, representante, servente etc. Sendo assim, nos dias atuais, os hiperônimos se tornaram palavras em extinção.

A NOSSA LÍNGUA É MACHISTA?

Definitivamente, NÃO! A língua portuguesa sofreu diversas influências de outros povos, outras línguas, outras sociedades, em outras épocas, e tudo isso como uma conjuntura de fatores alterou a língua e a nossa forma de usá-la nos dias atuais.

Quando utilizamos um hiperônimo, amigos por exemplo, a desinência em “o” não leva em consideração questões como a da “heteronormatividade”, “patriarcado”, “sexismo” e afins como bradam as atuais “minorias” de intelectuais keynesianos brasileiros. Não utilizamos as palavras como uma palavra do gênero masculino ou feminino, não devemos confundir gênero de uma palavra com a nossa sexualidade. Convencionou-se utilizar a desinência “a” como relativa a palavra de gênero feminina e “o” como relativa ao gênero masculino da palavra, apenas como convenção linguística e não observando a “sexualidade” das mesmas.

O sexismo, feminismo ou machismo, não se dá na origem da língua em si, mas nas pessoas que a utilizam de forma falaciosa, má-intenciona, assim como qualquer ferramenta que pode servir tanto como uma facilitadora para o ser humano ou também como um instrumento de destruição do mesmo, assim como uma faca, por exemplo.

É interessante de se observar que havendo substantivos na língua portuguesa dos dois gêneros, feminino-masculino, a norma gramatical diz que o adjetivo referente vai para o masculino plural com podemos observar na frase: “O jogador e as jogadoras são esforçados. ”. Pode haver na equipe apenas um jogador e todas as demais jogadoras, mas quando se utiliza um adjetivo, ele sempre concordará com a palavra que possua a desinência em “o”.

Também podemos observar outra regra bastante interessante. Quando o pronome pessoal de 3ª pessoa do plural, eles, sempre predomina quando se refere a substantivos femininos e masculinos na mesma frase. Por exemplo: Eles, João, Patrícia e Paula, fazem parte de minha equipe.

Outro caso interessante de ser analisado, foi o caso recente da palavra presidente, substantivo uniforme, comum aos dois gêneros, que foi transmutada na palavra presidenta. Isto mesmo, com a desinência em “a”, porquê na ocasião do mandato político, 2011-2016, de nossa última presidente da república, Dilma Rousseff, se achar vítima de um discurso sexista e excludente, se autodeclarou presidenta da República Federativa do Brasil. Então vamos analisar este caso. A palavra presidenta não está totalmente “errada” visto que já fora utilizada em nossa língua até o século XIX e até dicionarizada na época, mas que se tornou um arcaísmo, vício de linguagem em que se usa uma palavra que caiu em desuso na língua e por isso gera má compreensão nos seus interlocutores. Podemos perceber também o viés politico-ideológico em tal palavra se observarmos que a palavra presidente, seguindo essa lógica linguística, também deveríamos utilizar essa mesma com a desinência “o”, presidento, coisa esta que se torna impraticável. Se observarmos outros substantivos como: artista, camarada, dentista, imigrante, pianista, paciente, mártir etc, percebemos que todos estes são também uniformes, mesmo possuindo terminações em “a”, “e” ou “i”, e mesmo assim, não conseguimos classificá-las como palavras sexistas.

Parte I.

ALMEIDA, Fernando Rodrigues de. A Origem da Língua Portuguesa. São Paulo: Chiado Brasil, 2013.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 48º ed. São Paulo: IBEP, 2009.

COUTINHO, Ismael de Lima. Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2011.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

É diretor acadêmico e redator do Instituto Tropeiros, professor de Língua Portuguesa, escritor marginal por vocação e liberal por opção.

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