ONDE ESTÁ A SUA LÍNGUA?

Podemos constatar que a língua portuguesa é um “organismo vivo” que constantemente está absorvendo e se transformando por sofrer diversas influências da sociedade, a qual a constituiu como ferramenta indispensável de comunicação. Sendo assim, podemos classificar essas transformações como “orgânicas”, quando esses fenômenos surgem naturalmente do “seio” da sociedade, como um reflexo natural de uma mudança social ou, como costumo nomeá-la, “artificiais”, visto que um grupo de fenômenos, palavras ou significações semânticas, são instituídas arbitrariamente diretamente ou indiretamente por um determinado grupo social. Atualmente existe em nosso país, um plano escuso de degradação de toda uma identidade linguística, e consequentemente social, na intenção de promover um determinado pensamento político-ideológico como progressista, moderno e único, ou seja, totalitário. Podemos averiguar também que foram utilizadas várias estratégias linguísticas na intenção de criar uma “nova” língua, linguagem, portuguesa buscando teoricamente dar voz aos “excluídos”, minorias, que na realidade são um grupo majoritário de pessoas, negras, mestiças, homossexuais etc, em nosso país, mas que são utilizados como motes de um grupo mínimo, uma elite, de pessoas.

A “DESINÊNCIA” DE GÊNERO “X” E “@”

Quando falamos sobre gênero na língua portuguesa, utilizamos a desinência “a” como indicativo do gênero feminino e “o” do masculino, mas não existe relação alguma ao sexo feminino ou masculino, não estamos nos referindo à órgãos genitais, assim como nós seres humanos, mas apenas estamos seguindo conveniências linguísticas que foram instituídas durante o amadurecimento da língua portuguesa nos séculos passados. Gênero gramatical é uma coisa, sexualidade é outra totalmente distinta. Segundo alguns linguistas, Almeida (1963), Câmara Jr. (1970), Cunha e Cintra (2008), a marcação de gênero dita “masculina” na verdade se trata de um gênero neutro, assim como no latim vulgar, enquanto que a “feminina” se dá de forma específica. Como consequência de uma teórica “igualdade social” a teoria Queer, surgida nos Estados Unidos da América nos anos 1980, buscou abolir paulatinamente as desinências de gênero na nossa linguagem, “a” e “o”, e substituindo-as por outras “desinências”, “x” e “@”, utilizando o argumento de que estavam combatendo o sexismo, sociedade patriarcal, presentes em nossa língua, cultura, e promovendo a inclusão das mulheres e de determinados grupos sociais marginalizados, LGBTTT, as chamadas “minorias”, através de uma linguagem “inclusiva”. Desta forma então, observamos que para os mesmos não existem mais nos dias atuais meninos ou meninas, mas “meninxs” e “menin@s”. Quando utilizamos este tipo de linguagem em meios tecnológicos e redes sociais isso é totalmente aceitável, visto que dada a velocidade da comunicação a linguagem na internet se torna um terreno vasto e sem leis denominado internetês. O exemplo mais recente desta anomalia linguística pudemos constatar em um cartaz informativo sobre o início do semestre acadêmico vinculado nas redes sociais no dia 23/02/18 pela UNEB, Universidade do Estado da Bahia, que expõe a seguinte frase “Está chegando a hora! Início do semestre 2018.1 – 26 de fevereiro. Bem-vindxs!”. Daí eu faço as seguintes perguntas aos meus caros interlocutores: essa “desinência”, “x”, é aceita e foi incorporada na língua portuguesa? Quais e quantos os pesquisadores, linguistas, docentes da língua utilizam esta desinência como incorporada a norma padrão da língua? Quem e quando esses fenômenos foram incorporados em nossa língua? Se você estivesse se comunicando via carta, oficio, documento oficial etc, com o seu empregador, empresa ou um dos seus familiares mais velhos, pais e avós, achas que estes aceitariam e compreenderiam esse tipo de linguagem? Outro exemplo claro desse fenômeno artificial em nossa língua foi o da campanha publicitária de uma muito conhecida marca de cosméticos brasileira que no mês de junho do ano de 2016 lançou uma campanha intitulada “Para TodEs”. Esta campanha visava “combater” a homofobia bastante presente em nossa sociedade e também, quiçá, o preconceito dos homens em usarem cosméticos visto que os mesmos teoricamente são “machistas” e não gostam de cuidar de sua aparência, mas sabemos na realidade, que a motivação por trás daquela campanha publicitária “Para TodEs” não era combater possíveis preconceitos ou violências sociais, mas sim abocanhar, sem trocadilhos, o enorme público consumidor LGBTTT.

Desta forma constatamos que aqueles que utilizam nos seus discursos tais “desinências” estão na realidade seguindo cegamente uma corrente ideológica arbitrária de abolição das tradições e supremacia da anarquia linguística mesmo sem fazerem isso de forma consciente. Essas alterações, mesmo que para os mais letrados, soam como um sentimento coletivo de “progressismo” ou até mesmo, uma consequência de uma “evolução” linguística-sexual-tecnológica, onde as pessoas não precisam mais se classificarem como “A” ou “B”, visto que estamos em constante ebulição e transformação, assim como uma sociedade líquida e para essas mesmas, se classificar, significa se limitar. Assim sendo, estamos deixando de ser pessoas únicas, para nos tornar apenas em uma grande massa homogênea de números. Será que permitimos todo tipo de alteração em nossa língua isso servirá para o desenvolvimento de nossa sociedade? Abolir a norma culta de nossa língua será uma forma genuína de evolução social, linguística, ou apenas uma degradação de nossos valores e tradições em nome de uma tão falada “evolução social”? Será que com o advento da internet e dessas formas de linguagem, palavras, sem nenhum respaldo histórico-linguístico não reduziremos a nossa língua apenas a gestos primitivos, balbucios ou emoticons?

Esperemos então pelos próximos anos e décadas para vermos o resultado de todas essas mudanças em nossa língua. Apesar de termos criado uma língua totalmente sui generis comparada a língua portuguesa, creio até que devêssemos rebatizar a nossa língua para algo como língua brasileira, visto que estamos nos desvencilhando completamente de nossa história e tradição linguística.

Acredito que neste momento deveríamos voltar a estudar e aprender com a nossa velha e sábia mãe, a língua portuguesa.

Parte II

ALMEIDA, N. M. Gramática metódica da língua portuguesa. 15º ed. São Paulo: Saraiva, 1963.

CÂMARA JR, J. M. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1970.

CUNHA, C.; CINTRA, L. Nova gramática do português contemporâneo. 5º ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008.

RODRIGUES, Sergio. Viva a Língua Brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

É diretor acadêmico e redator do Instituto Tropeiros, professor de Língua Portuguesa, escritor marginal por vocação e liberal por opção.

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