Por que o movimento liberal irá fracassar? (E como evitar que isso aconteça)

Aristóteles e Platão em Atenas. Rafael – Scuola di Atene (1509–1511)

 

Jorge Amado, Niemayer, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jô Soares, Marieta Severo, Beth Carvalho, Letícia Sabatella. (Brazil)

José Galeano, Umberto Eco, Frida Kahlo, Pablo Picasso. (Mundo)

 

Encerro meu caso, meritíssimo.

Esses são só alguns que se alistaram voluntariamente na minha mente em 1min. A lista é de centenas, milhares, de artistas talentosos e reconhecidos que são de esquerda sem sombra de dúvida.

Se colocarmos ao lado uma lista de artistas liberais, mesmo que adicionada por conservadores, esta iria se esmaecer diante do monopólio absoluto da arte pela esquerda.

 

  • – Por que?
  • – Qual a importância disso?
  • – O que podemos/devemos aprender?

 

1 – É difícil traçar uma explicação única, mas esta teria algo a ver com a natureza ideal da arte, que nos possibilita sonhar e corporificar ideias que nem sempre estão em compasso com a realidade das coisas, buscando sempre algo melhor – Como também os subsídios governamentais. São dois lados da mesma moeda que empurrou o exército das pessoas mais talentosas e revolucionárias para um espectro político que causou tanta destruição e pobreza. É um próximo de paradoxo.

Da mesma forma que engenheiros e empresários não costumam ser idealistas, artistas plásticos não têm como hobby analisar planilhas de Excel ou passar o dia conferindo o preço das ações ou do Bitcoin. São duas formas diferentes de se guiar a vida e de avaliar o mundo de acordo com um sistema axiológico próprio. É uma gradação inegável a forma de enxergar a realidade, os subsequentes desejos imanentes que acompanham e, enfim a derivação política e a visão econômica destilada. Mas obviamente não há absolutos aqui.

 

            2 – As duas formas de se ver o mundo são importantes para a manutenção do que há de bom e a melhoria do que pode e deve ser modificado. É um equilíbrio tênue entre o poder que busca conservar o status quo e o que o planeja modificar. As revoluções liberais e suas ideias que hoje nos balizam e estão na Constituição de todos os povos (mesmo que de forma retórica) e a 500 anos seriam consideradas o ápice do subversivo e a destruição total do tecido social. Precisou-se de uns 300 anos para modificar gradualmente o volkgeist das nações europeias para um início de mudanças com as revoluções inglesas e francesa, a codificação napoleônica e a consolidação industrial totalizando a vitória da burguesia sobre o ancién regime.

Hoje a ampulheta do tempo está virada, e é o Capitalismo que está sendo desgastado por algo que vem por aí. O difícil é saber o quê, como e se valerá a pena. Por isso a importância do elemento conservador – e aqui se fala no âmbito internacional, pois o Brasil nunca foi de fato capitalista, seja em estrutura política ou cultura popular, para se conservar qualquer coisa que nunca existiu.

O fato é que nos encontramos entre a cruz e a foice, e embaixo de tudo isso a mediocridade ignorante amorfa como uma bigorna. Uma nação que mal se tornou capitalista caminha para alguma outra coisa. Um bom exemplo disso foi a Rússia que mal se tornou capitalista e os bolcheviques já tomaram o poder. O resultado foi a fome e a miséria de milhões, tanto que Lênin e Stálin posteriormente deram uma marcha ré na revolução do proletário e primeiro modernizaram e industrializaram o país para em algum momento fazer a revolução. Não deu certo, obviamente.

A última coisa que o Brasil precisa, portanto, é colocar a carroça na frente dos bois, porque está será esmagada e os bois farpeados pelo destroço. Se a metáfora não ficou clara os brasileiros são os bois e a carroça são as instituições que deveriam salvaguardar nossos direitos fundamentais e não nos oprimir e escravizar como o fazem hoje.

Como então inspirar o ânimo produtivo e modificador da realidade inerentes ao espírito capitalista num povo tão avesso às privatizações? A pergunta já responde – no espírito. O movimento liberal hoje está fadado a fracassar porque ele não alcança a alma das pessoas. Não fala do sofrimento feminino como Frida, não fala das veias abertas da América Latina como José Galeano, não têm os dois maiores compositores vivos, Chico Buarque e Caetano, cujas músicas são da maior qualidade e renome internacional os tornando lendas vivas. O que nós temos? Pouca coisa.

 

            Temos => Logus, gráficos, Pib per capita, Bitcoins, jargões econômicos e memes mal feitos.

                                                                       Vs.

O que precisamos => Pathos, pinturas, musicais, cinemas, poesia e memes bem feitos.

 

3 – E o que podemos fazer quanto a isso? Transformar todos os grupos liberais numa academia de belas artes? Não. Mas devemos nos tornar mais sensíveis. O discurso racional, lógico não atinge a todos da mesma forma. As pessoas (felizmente ou infelizmente) são movidas pelas paixões, pela emoção, pela catarse – e por mais lindo que seja Henrique Meireles mostrando um crescimento de PIB de 15% ao ano para nós, liberais economicrazys, isso passa batido para a maioria das pessoas. É um velho careca, horroroso, provavelmente ladrão, mostrando um slide com números que não significam nada – por mais que significassem muito.

Precisamos, portanto, racionalizar nossos artistas incríveis para as belezas de uma economia potente – pois nada é mais lindo do que ver a dizimação da pobreza – ao passo que nos sensibilizamos como gestores, engenheiros, economistas e cientistas. Claro que aqui falo de forma generalizada, até porque este que vos fala se chama de poeta (comprem meu livro, Pássaro Assimétrico o nome. Capitalismo é isso, né).

Devemos ajustar o discurso, nos humanizar, deixar os bitcoins e as palestras secas por um momento de lado e nos aventurar na alma humana e no que poderia ser possível sublimando a realidade.

“Ah, Pedro, mas nem todo mundo é criativo, eu não curto essas coisas” E que bom que você não curte, porque precisamos de pessoas que gostam de álgebra, seja lá o que for isso. Mas se você tem PRETENSÕES POLÍTICAS, no sentido de mudar o mundo e não se candidatar a vereador, você deve afinar seu discurso (e sua tolerância), porque senão farás mais estragos do que bem.

E para essas pessoas eu trago O Manifesto Romântico da nossa deusa-russa Ayn Rand. O que danado é arte e para que ela serve? Museus e galerias hoje só me dão sono. As pinturas de Michelangelo, Rafael e Da Vinci até que eram massa, mas essas aí que tem hoje num dá. Pois Ayn Rand explica bem direitinho isso, de forma racional para mentes racionais. Bora pular dentro desse rio? Trago aqui 4 citações que esclarecem bastante e dão um vislumbre da importância desta obra obscura que quase ninguém conhece ou lembra.

 

  Sobre a antiguidade da arte e uma introdução à sua importância.

 

Enquanto a física chegou a um nível no qual a humanidade se tornou capaz de estudar as partículas subatômicas e o espaço interplanetário, um fenômeno como o da arte permanece como um mistério obscuro, com pouco ou nada que se conheça sobre sua natureza, sua função na vida humana ou a causa de seu tremendo poder psicológico. Ainda assim a arte possui uma importância passional e profundamente pessoal no que concerne a maioria dos homens – pois têm existido em toda civilização conhecida, acompanhando os primeiros passos do homem desde os primeiros momentos da aurora pré-histórica, mais cedo do que a linguagem escrita. (RAND, 1969. Pág. 17. Tradução livre)[1]

 

Sobre a finalidade da arte (contemplação) e a resistência do homem ao procurar entendê-la, considerando-a como um ataque à sua própria identidade que se mistura com esta. Por isso a estranheza e a feitura de museus e galerias em arenas sociopolíticas, pois a arte, ao mesmo tempo que é relegada a um segundo plano de importância pela maioria das pessoas, ao sofrer um só ataque que seja, mesmo que não configure um ataque per se – é tão importante para todos ao ponto de nos mobilizar a discutir, mesmo os que não se importam nem um pouco com arte, museu ou galerias – se um homem nu no museu é arte ou não. E só ao realizar esta pergunta o objeto da discussão já realizou sua função de reflexão.

 

Uma das características mais distintas de um trabalho de arte (incluindo a literatura) é que não serve para nenhum fim prático ou material, mas é um fim em si mesmo. Não serve para nenhum outro propósito que não a contemplação – e o prazer desta contemplação é tão intenso, tão profundamente pessoal que o homem a experiencia como uma forma primária autossuficiente, autojustificativa e que, geralmente, resiste ou ressente qualquer sugestão de analisá-la: a sugestão, para ele, possui a qualidade de um ataque a sua identidade, no seu mais profundo e essencial ego. (RAND, 1969. Pág. 19. Tradução livre) [2]

 

Vamos lá, essa é a parte mais complicada (e obviamente a mais importante). “Para entender a natureza e a função da arte deve-se entender os conceitos”. Se eu digo a palavra cavalo este conceito traz inúmeras informações condensadas num só signo. Um animal de quatro patas; pode ser branco, marrom ou preto; malhado ou com listras; parecido com uma zebra etc. Se eu digo cavalo branco a primeira associação que aparece é a de um cavaleiro, um príncipe ou um herói, pois o cavalo branco representa o heroísmo, a força, etc. A linguagem funciona assim – nossa cadeia de conceitos vai se formando pela apreensão das informações e da cultura. Já imaginou que se, numa história, eu tivesse que explicar tudo o que significa um cavaleiro e um cavalo branco toda vez que eu fosse conta-las? A capacidade de assimilar conceitos (que são conjuntos de perceitos, informações individuais) é o que nos permite contar a história do mundo em poucas palavras. É o que me permite falar Gandalf e um rio de informações na cabeça dos nerds se forma após isso. E agora que eu falei cavalo branco você se já assistiu ao filme ou leu o livro imaginou Gandalf, o branco, cavalgando para salvar ou Minas Tirith ou Helms Deep.

E tudo isso que estamos falando nos causa tantas emoções e nem existem. Nunca existiu um Gandalf, nem Terra Média nem nada. Mas para nós é tão real que é quase assustador, pois as emoções, as ideias e os ensinamentos são reais. Nós somos uma raça de seres que contam histórias. E essa é a força da arte através da codificação da nossa linguagem. A mente humana funciona dessa forma – e a arte também. Daí deriva seu poder absurdo. E é a partir dela que devemos conquistar o mundo, pois a arte forma a cultura, a cultura forma a política, a política forma a economia, e a economia forma a nossa existência material como trabalhadores e consumidores. A arte é o começo de tudo, e por isso a censura acompanha o autoritarismo.

E a produção artística se dá através da rede valorativa que um artista tem, isolando os aspectos da realidade que lhe convém. Quando todos ou a maioria dos artistas possuem um viés moral ou um espectro político, qual sentido há em combater possíveis Tolkiens soviéticos ou C.S. Lewis sociais democratas intervencionistas com Henrique Meireles segurando gráficos de inflação ou PIB per capita? A única diferença real entre Temer e Lula é que só Lula entendeu isso, por isso mesmo com dois pés e 9 dedos para o lado da cadeia ele ainda é adorado e venerado pelo povo, enquanto Temer tem 1% de aprovação. O movimento liberal precisa se organizar em torno da produção artística espontânea, de qualidade e bem pensada, ou fracassaremos.

 

A origem da arte reside no fato de que a faculdade mental do homem é conceitual, ou seja, que o homem adquire conhecimento e que este guia suas ações, não pela forma isolada de perceitos, mas sim por meio de abstrações. Para entender a natureza e a função da arte deve-se entender a natureza e a função dos conceitos. Um conceito é a integração mental de duas ou mais unidades, as quais são isoladas pelo processo de abstração e unificadas por uma definição específica. Organizando sua percepção material em conceitos, e por sua vez estes conceitos em conceitos cada vez mais amplos, o homem é capaz de assimilar e reter, identificar e integrar uma quantidade ilimitada de conhecimento, um conhecimento que se estende para além dos concretos imediatos. (RAND, 1969. Pág. 20. Tradução livre)[3]

 

Arte é uma recriação seletiva da realidade de acordo com os valores axiológicos metafísicos de um artista. Através desta recriação seletiva, a arte isola e integra os aspectos da realidade os quais representam a visão fundamental do homem – de si e de sua existência. Através dos incontáveis números de concretos – de atributos desorganizados, singulares e aparentemente contraditórios, de ações e entidades – um artista isola aquilo que ele considera metafisicamente essencial e os integra em um novo e único concreto que representa e corporifica uma abstração. (RAND, 1969. Pág. 23. Tradução livre)[4]

 

 

Por fim, um exemplo prático sobre como a moralidade e o contexto formam os movimentos artísticos numa comparação entre a escultura clássica e a medieval.

 

Considere duas estátuas de um homem: uma como um deus grego, a outra como uma monstruosidade medieval deformada. As duas são estimativas metafísicas do homem. As duas são projeções da visão artística da natureza do homem. As duas são concretizações representativas da filosofia de suas respectivas culturas. Arte é a concretização da metafísica. Arte traz os conceitos do homem para o nível perceptual de sua consciência e o permite assimila-los diretamente como se fossem perceitos. (RAND, 1969. Pág. 23. Tradução livre)[5]

 

Façamos arte, amor e gráficos de inflação e PIB per capita. É tudo uma coisa só.

 

 

 

Citações Originais – Referências

 

[1] While physics has reached the level where men are able to study subatomic particles and interplanatary space, a phenomenon such as art has remained a dark mistery, with litle or nothing known about its nature, its function in human life or the cause of its tremendous psychological power. Yet art is of passionately intense importance and profoundly personal concern to most men – and it has existed in every know civilization, accompanying man´s steps from the early known civilization, accompanying man´s steps from the early hours of this prehistorical dawn, earlier than the birth of written language.

 

[2] One of the distinguishing characteristics of a work of art (including literature) is that it serves no practical, material end, but is and end in itself; it serves no purpose other than contemplation – and the pleasure of that contemplation is so intense, so deeply personal that a man experiences it as a self-sufficient, self-justifying primary and, often, resist or resents any suggestion to analyze it: the suggestion, to him, has the quality of an attack on his identity, on his deepest, essential self.

 

[3] The source of art lies in the fact that man´s cognitive faculty is conceptual – i.e., that man acquires knowledge and guides his actions, not by means of single, isolated percepts, but by means of abstractions. To understand the nature and function of art, one must understand the nature and function of concepts. A concept is a mental integration of two or more units, which are isolated by a process of abstraction and united by a specific definition. By organizing his perceptual material into concepts, and his concepts into wider and still wider concepts, man is able to grasp and retain, to identify and integrate an unlimited amount of knowledge, a knowledge extending beyond immediate concretes of any given, immediate moment.

 

[4] Art is a selective re-creation of reality according to an artist´s metaphysical value-judgments. By a selective re-recreation, art isolates and integrates those aspects of reality which represent men´s fundamental view of himself and of existence. Out of the countless number of concretes – of a single, disorganized and (seemingly) contradictory attributes, actions and entities – an artist isolates the things which he regards as metaphysically essential and integrates them into a single new concrete that represents and embodied abstraction.

 

[5] Consider two statues of man: one as a Greek god, the other as a deformed medieval monstrosity. Both are metaphysical estimates of man; both are projections of the artist´s view of man´s nature; both are concretized representations of the philosophy of their respective cultures. Art is a concretization of metaphysics. Art brings man´s concepts to the perceptual level of his consciousness and allows him to grasp them directly, as if they were percepts.

 

Bacharel em Direito. Escritor. Poeta. Ayn Rand fanboy.

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