Só o amor pode curar o ódio nas discussões políticas

O amor não nasce por acaso. Ele é fruto da consciência humana. Nas discussões políticas o que não falta é um eminente estado de inconsciência. Esse vil estado humano limita nossa capacidade de ver o outro como um sujeito o qual se deve ter respeito e amor acima de tudo, e, dessa incapacidade de vê-lo como um ser humano, que é munido de anseios muitas vezes sentimentais, acabamos transformando-o num objeto, numa entidade, a qual merece apenas nossa total ojeriza.

Quase todas as formas ditatoriais, e naturalmente as totalitárias, brotaram desse grau de despersonalização. Os fanáticos têm um traço inconfundível: esquecem que os outros são pessoas, reduzem-nos a um grupo, uma coisa, uma classe, raça ou o que seja, isto é, a um conjunto de caracteres abstratos sobre os quais agem mecanicamente. As pessoas, com esse fanatismo, fazem com que o diálogo se torne impossível, mesmo quando as duas partes têm certo domínio do assunto tratado. Sabemos que só existe diálogo possível entre pessoas que têm mais ou menos os mesmos domínios dos fatos pertinentes. Hoje em dia, porém, esse diálogo civilizado, onde as partes dialogam civilizadamente e expõe seus argumentos, é inconsistente.

Os argumentos ali expostos no âmago da discussão só provocam raiva, porque os argumentos em si não importam. O que importa é que o nosso ouvinte supra nosso ímpeto de superioridade. Suprindo-o, ele transformar-se-á finalmente em uma pessoa. Tudo é uma questão de conveniência egocêntrica.

O ego é o mediador da discussão. Mas que mediador mais pérfido, não? As pessoas nem querem superá-lo poque nutri-lo nos faz bem. A sua estratégia contra nós é subverter a própria razão humana. O amor, no entanto, tem uma estratégia diferente nas relações sociais como um todo: ele ilumina o embate político à luz da empatia.

Muitas vezes não temos nenhum grau simpatético com aquela pessoa e admoestá-la é muito mais prazeroso do que ensiná-la com calma, bonança e atenção. Apenas o amor, portanto, pode amainar os nervos daqueles que estão babando de ódio.

As redes sociais fomentam ainda mais esse ódio político, principalmente porque não conseguimos ver a pessoa empiricamente, e fitá-la visualmente olho a olho é muito importante para que não formemos um ideal abstrato dela.

Não basta pôr os olhos sobre uma face para vislumbrar o outro que se expõe. Quando o homem é reduzido a um objeto abstrato do ideal humano, despreza-se o caráter valorativo, subjetivo e pessoal que a acompanha e lhe confere dignidade por toda a vida desde a concepção até a derradeira hora da morte.

A imagem humana do outro criada por nosso ignóbil imaginário abstrusa qualquer capacidade de entendimento. No que diz respeito às pessoas, achamos que estamos diante de algo, mas estamos, na verdade, diante de alguém que tem valor por si. A existência subjetiva do homem, a força da sua experiência interior, não está disponível ao ímpeto igualmente humano de compreensão total. No mundo das discussões políticas, o homem deve ser sempre um alguém, um sujeito, e não um objeto sujeito à arbitrariedade alheia. A dignidade do homem singular deve permanecer sempre um valor não derivado de qualquer construção teórica e imagética.

 

 

Graduando-se em direito, escritor por hobby e editor e colunista do Instituto Tropeiros.

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