O Mito das “Fake News”

Em meio a sucessivas mudanças nas tendências políticas em boa parte dos continentes, suscitam-se discussões inflamadas a respeito de um tema que esteve presente no mundo praticamente desde a existência da humanidade, mas que nunca havia ocupado tanto a pauta do mainstream: as “fake news“. No entanto, a aparência bem-intencionada dos fomentadores do assunto encobre o fator motivador de suas atitudes, que está atrelado a uma conjuntura em especial, nunca antes vigente no mundo moderno.
O termo fake news se popularizou a partir da eleição presidencial dos EUA, em 2016, que estava polarizada entre Hillary Clinton, do Partido Democrata, e Donald Trump, do Partido Republicano. Durante a campanha, se notabilizou um modus operandi, quase generalizado, por parte das emissoras de TV, que consistia em realizar ataques, fossem velados ou explícitos, à candidatura do político republicano, por meio da veiculação de uma cobertura jornalística falsificadora dos fatos, distorcendo acontecimentos e falas, proferindo acusações infundadas, superdimensionando eventuais falhas do candidato e escondendo maiores fatores negativos de sua adversária. Tendo em vista a referida situação, Trump e sua equipe de campanha passaram a rotular jornalistas da mídia televisionada de “propagadores de notícias falsas”, chegando a hostilizá-los publicamente em entrevistas coletivas e em eventos afins após sofrer provocações. Após o resultado, com a vitória do candidato republicano, as entranhas do contexto se tornaram explícitas: o presidenciável vencedor propunha bandeiras características do povo americano, como direito de possuir armas de fogo, política imigratória mais rígida e liberdade econômica, que vinham sendo detratadas e estigmatizadas por instituições do establishment, e tal postura entrou em choque com grande parte da imprensa tradicional, que é composta por indivíduos que, influenciados pela secularização e contaminação proselitista do meio, foram condicionados a adotar uma ideologia que os faz enxergar a sociedade como se esta fosse movida por lutas de classe, entre ricos e pobres, negros e brancos, cristãos e pagãos, homens e mulheres, etc, tendo sempre uma classe opressora e uma oprimida. Em nome dos pretensos valores de tal ideologia, o uso de instrumentos imorais pautados na mentira e na farsa, a exemplo do notável escândalo da produção premeditada da falsa acusação de interferência russa em favor do candidato republicano, se tornou recorrente e supostamente justificável para impedir que o representante de uma visão contrária, descentralizada e popular, chegasse ao poder. O popularizado acesso à internet por parte dos cidadãos americanos, aliado ao fato de as emissoras de rádio terem posição política divergente das de TV, fez com que pudessem confrontar as teses e notícias com fontes diversas e permitiu que constatassem uma desconexão da realidade por parte, não apenas de órgãos tradicionais de mídia, mas também de outros grupos e instituições integrantes do mainstream, como universidades, classe artística e movimentos sociais. Diante desse cenário, em pesquisa da Poynter Media Trust Survey, metade da população dos EUA afirmou ter “apenas alguma” ou “praticamente nenhuma” confiança na imprensa, 44% considerou que a mídia produziu mais notícias falsas contra Trump e 31% considerou que os órgãos que o fizeram são inimigos do povo americano.
Apesar do modo pelo qual se deram a origem do termo e a popularização da discussão, a abordagem para com o assunto teve sua essência fundamentalmente desvirtuada no Brasil, passando a retratar os meios de comunicação descentralizados como sendo os algozes da fluidez democrática e os órgãos da grande mídia como sendo os paladinos da verdade e isenção. Num cenário já deteriorado por legislações e intentos jurídicos voltados para o cerceamento do uso da internet, como o Marco Civil da Internet e os projetos de burocratização de atividades virtuais, bem como pela oligopolização do setor de mercado responsável por ofertar o serviço, os interesses que guiam tais atentados à liberdade individual se tornaram ainda mais explícitos em decorrência de uma atípica disputa eleitoral para o cargo presidencial, que se deu de forma a ameaçar uma obscura hegemonia cultural vigente no país. O jornalismo praticado por grandes emissoras de TV e por jornais impressos de grande porte, como no caso dos EUA, se direcionou ostensivamente no intuito de impedir a vitória eleitoral do candidato Jair Bolsonaro (PSL), que propunha teses frontalmente divergentes a tais instituições, mas alinhadas às preferências majoritárias da população brasileira, como posse de armas de fogo, anti-comunismo e maior rigidez para o código penal. Durante a campanha, diversas ameaças e ataques, protagonizados por instituições de grande portepartidos políticos e até por vários programas oficiais de governo de presidenciáveis, foram realizados aos mecanismos virtuais de informação, na tentativa de conter a onda anti-establishment. Não obstante o fato de a internet não ser tão acessível quanto nos EUA e não haver nenhum segmento midiático fora do ambiente virtual onde há fontes politicamente divergentes das entidades tradicionais, o político obteve êxito no pleito.
Há um sistema centralizador montado no Brasil, que atua no sentido de bloquear a ascensão de instituições ou indivíduos avulsos às oligarquias estabelecidas. Baseadas na narrativa invertida a respeito das fake news, as grandes entidades de mídia, maciçamente financiadas pelo governo federal e influenciadas pela contaminação cultural originada no país a partir da segunda metade do século XX com a sindicalização da profissão de jornalista e a criação de um curso universitário específico para a área (ambos os processos comandados por ativistas do marxismo), se uniram na tarefa de realizar o serviço de “checagem dos fatos”, rotulando notícias e afirmações como verdadeiras ou falsas de acordo com seus próprios critérios. As referidas instituições, além de serem vinculadas a tais fatores negativos, são dependentes do poder governamental desde a sua origem, no caso das emissoras de rádio e TV, pois representam concessões públicas e necessitam de aprovação no Congresso Nacional para que possam existir, e, diante de tão grande burocracia e consideráveis barreiras regulatórias, formam um oligopólio, que deteriora a qualidade dos serviços prestados e favorece uniformidade no modus operandi, inviabilizando a confrontação de teses e a averiguação mais eficiente dos fatos.
Apesar de serem algo ruim, as fake news, ao menos em democracias sólidas, não devem ser um problema, pois a pluralidade de fontes oriunda de tal regime possibilita a averiguação natural dos acontecimentos por parte dos próprios consumidores do produto informacional. A internet, viabilizada no Brasil pela privatização do sistema de telefonia, que apesar de não ter pulverizado o capital do setor, significou um ato de descentralização de poder, possui, por definição, a maior diversidade possível de fontes. Seu cerceamento representa uma ação no sentido de facilitar a propagação de notícias e narrativas falsas, comprometer a liberdade individual e centralizar o poder em grupos seletos.
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Graduando em ciências econômicas pela UFPB, cofundador da Rede Intelicidades, blogueiro (pensandodireita.blogspot.com)

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